Fulminei seus olhos com os meus
Lacerei meu peito bravejando à Deus
Não encontrei senão tristeza
Alvejando em ti toda minha vileza.
Mas ai!
Eis que recordo do verde olhar
Sinto minh'alma se acalmar
Pra num instante, então, se agitar
Esbravejar, chorar, gritar
Experimentar o próprio inferno
Apenas por nos lembrar
Pois nunca cansou de te amar.
Infeliz alma inquieta que não sossega
Ela clama, implora, depreca
Sente a solidão como indomada fera
Urra, urge, o coração dilacera
Como chama que consome
Sufoca o peito de dor
Tempestade de furor
Incansável paixão que causa este ardor.
Essa alma já doente
Morre lentamente
Definha na solidão
Cansa seu existir
Solidão cavada
Solidão buscada
Solidão encontrada
Não vê mais nada
Cega de cólera
Não sabe d'outro descanso
Senão eterna morada.
Sem o paraíso
Por enquanto
Habita no limbo
Cansada, desiludida
Não conhece graça na vida
Mas lembra de quando seus olhos via
Recorda do amor, do ardor, do desejo, da paixão
Rememora com louvor
(Apesar de agora sentir rancor)
Quando pra ti sorriu
E teus olhos sorriram de volta
Enquanto preparava palavra
Pra receber você no coração
Te amar com infinita gratidão
Sem saber
Que num dia de inverno qualquer
Tu iria embora
Deixaria pra trás apenas flocos de lembrança
Que nem a mais doce infância
Seria suficiente pra superar toda doçura
Da tua deliciosa bonança.
Tu partiu em direção ao infinito
E pra esta alma restou apenas o pensamento maldito
De acreditar que era apenas um sonho
Um sonho de uma manhã incerta
Um sonho
Que o sonhador jamais desperta.
Gabriel Borçatto.
Pintura destacada: O Anjo Caído - Alexandre Cabanel - Óleo sobre tela - 121 x 190 cm - 1847 - (Musée Fabre (Montpellier, France)
