Poesia - FUROR


Fulminei seus olhos com os meus

Lacerei meu peito bravejando à Deus

Não encontrei senão tristeza

Alvejando em ti toda minha vileza.


Mas ai!

Eis que recordo do verde olhar

Sinto minh'alma se acalmar

Pra num instante, então, se agitar

Esbravejar, chorar, gritar

Experimentar o próprio inferno

Apenas por nos lembrar

Pois nunca cansou de te amar.


Infeliz alma inquieta que não sossega

Ela clama, implora, depreca

Sente a solidão como indomada fera

Urra, urge, o coração dilacera

Como chama que consome

Sufoca o peito de dor

Tempestade de furor

Incansável paixão que causa este ardor.


Essa alma já doente

Morre lentamente 

Definha na solidão

Cansa seu existir 

Solidão cavada

Solidão buscada

Solidão encontrada

Não vê mais nada

Cega de cólera

Não sabe  d'outro descanso

Senão eterna morada.


Sem o paraíso

Por enquanto

Habita no limbo

Cansada, desiludida

Não conhece graça na vida

Mas lembra de quando seus olhos via

Recorda do amor, do ardor, do desejo, da paixão

Rememora com louvor

(Apesar de agora sentir rancor)

Quando pra ti sorriu

E teus olhos sorriram de volta

Enquanto preparava palavra

Pra receber você no coração

Te amar com infinita gratidão

Sem saber

Que num dia de inverno qualquer

Tu iria embora

Deixaria pra trás apenas flocos de lembrança

Que nem a mais doce infância

Seria suficiente pra superar toda doçura

Da tua deliciosa bonança.


Tu partiu em direção ao infinito

E pra esta alma restou apenas o pensamento maldito

De acreditar que era apenas um sonho

Um sonho de uma manhã incerta

Um sonho

Que o sonhador jamais desperta.



Gabriel Borçatto.

Pintura destacada: O Anjo Caído - Alexandre Cabanel - Óleo sobre tela - 121 x 190 cm - 1847 - (Musée Fabre (Montpellier, France)