Parte de Conto - PRISÃO DE JACK


 

Eu fui jogado numa cela escura e gelada. Feita de pedras e areia batida com tom esverdeado, grades curtas, porém grossas, onde a luz mal conseguia passar pelas suas frestas. O chão era úmido e ladrilhado de grãos de areia que irritavam a pele.

Eu não vi o caminho até aquela maldita cela que a partir daquele instante seria meu lar, além, é claro, da minha própria mente. Era assim que éramos instruídos, desde muito jovens, alguns até crianças. Nossa mente era nosso refúgio, nossa fortaleza. Nada ou ninguém poderia invadir aquele reduto de resistência. Mesmo que singela e frágil, era potencialmente indestrutível, capaz de realizar prodígios ou tragédias. E foi o que a minha mente realizou. Grandes prodígios, grandes tragédias. E ali eu estava, essa era a recompensa da soberba, a contrapartida de minhas decisões e omissões. Minhas paixões, prazeres e ambições agora eram habitações vazias, que incessantemente bombardeavam minha sanidade com relances de ódio, repulsa, tristeza e especialmente uma curiosa e ácida satisfação.

Sentei-me, ainda atordoado com a pancada na cabeça, num canto onde a luz era mais intensa e brilhava com certa liberdade. Nesse instante contemplei todas as minhas feridas. Na pele alguns arranhões e cortes sem profundidade. Na alma um rasgo entranhado, quase separando-a em duas, nada mais do que o preço do que eu havia construído. O custo era uma alma dilacerada por uma serra cega. Se cortassem qualquer membro do meu corpo, não seria dor suficiente para superar o sentimento inexorável de uma alma condenada ao fosso mais profundo do inferno. Comecei a reclamar de dor e pus a mão lentamente em minha nuca, como se tentasse, pela imposição dos membros, aliviar a dor e a tontura que me afligia. Imediatamente ouvi uma voz vindo do outro lado da cela, que possuía grandes dimensões. Uma voz rouca, fraca, misteriosa. Não conseguia identificar quem falava comigo, pois estava escuro, protegido sob a sombra das paredes, contra a luz do sol.

— É isso que conquistastes, pois?  — Disse a voz em tom de deboche.

— Quem falas? Mostra-te sob a luz, homem! — respondi, curioso e com certo espanto. Afinal, havia alguém em minha cela. E o mais intrigante: parecia me conhecer, pelo tom com que havia me dirigido.

— Quem eu sou, pouco importa. Aliás, não importa. Sempre estive contigo, mas tu não me vias. Tu me via quando andava na luz, mas passei a viver dentro de ti quando optou pela escuridão. Por isso não me vê, não podes me ver até que eu queira. Se me vir, será sempre manifestado em algo, sempre pela tua silhueta, na forma, mas na matéria, apenas por minha legítima vontade.

— Deixa-me confuso falando assim, não consigo compreender perfeitamente. Como se chama? Por que está preso nesta cela? — buscando certa proximidade e tentando persuadir a voz a se mostrar diante de mim, respondi em tom de amizade.

— Eu não tenho nome. Não possuo idade. Você é o único motivo de estarmos aqui.

Nesse instante a porta da cela se abriu, a voz cessou e uma leva de soldados entrou na cela. Eram 6. Por último, entrou um mensageiro oficial da Origem. Trazia consigo um ofício expedido por um dos 7 Grandes Conselheiros da Magnífica Assembleia.

— Louis “Jack” Albierg. Levante-se. Ouça a mensagem que tenho para você.

Imediatamente levantei e me coloquei em posição de descanso, como me foi ensinado na escola a se comportar diante de um mensageiro oficial da Origem.

O mensageiro tomou o papel em suas mãos e começou a lê-lo em voz alta:

— Ofício emitido pelo 7º Grande Conselheiro da Magnífica Assembleia. Expedição do termo de custódia. Louis Albierg, conhecido pelo codinome Jack, tu encontras sub custódia a Extraordinária Liga Original, numa prisão de classificação Masmorra, pelas suspeitas dos seguintes crimes: Assassinato, corrupção de comuns, volúpia e deserção. Todos os crimes serão julgados pelo tribunal citado no início deste documento, tendo como juiz todos os 7 Grandes Conselheiros da Magnífica Assembleia Original, a MAO. Cite-se importante o acusado saber dos seus poderes, que, dos preservados pela condição de investigado da Liga, são: Garantia de livre manifestação do seu pensamento; possibilidade de confissão precoce dos crimes, com o abono consequente das penas; integridade mental e física; permissão para orações na capela, acompanhado de guardas; Caro investigado: Julgue-se homem abençoado por receber a oportunidade para retratação. Use o tempo nesta cela para refletir e tornar-se um novo homem. O dia do seu julgamento será o dia da sua libertação.

Com essas palavras o mensageiro amassou o papel e se retirou da sala, indo com ele todos os guardas. Sentei-me novamente no canto da sala, sob a luz do sol e acabei esquecendo por um instante da voz que falava comigo antes da entrada dos guardas. Porém, logo dirigiu novamente a palavra a mim:

— Assassinato, volúpia, deserção e corrupção de comuns. O que tornaste tu? Tudo por líquidas e vãs paixões? Ideais supérfluos e voláteis? Um verme sob a terra, é isso que és. Não teve a ombridade e coragem de resistir a ti mesmo. Sucumbiu levianamente as forças opostas ao bem, e hoje é nisto que transformaste. Um moribundo jogado numa cela.

Tomado de ira me levantei e fui ao encontro da voz que se dirigia a mim no outro lado daquela escura cela. Com os olhos semicerrados e os punhos fechados, avancei com ira sob a silhueta que se apresentava diante dos meus olhos. Acertei a parede com toda força, quase quebrando os dedos, fazendo-a sangrar. Não havia matéria alguma ali. Era como se a voz tivesse virado pó. Forçando os olhos tentei reparar ao redor buscando encontrar o homem que me oferecia tal discurso, em vão. Parecia irreal. Gritei, bradando que se manifestasse diante de mim, que fosse corajoso para se apresentar como tal. Silêncio. Nesse instante pensei ter enlouquecido. Sim, eu havia enlouquecido. Estava conversando com quem, afinal? Como aquela voz sabia tanto sobre mim, parecia estar lendo meus sentimentos.

Observando minha mão sangrando, percebi que ao menos aquilo era real, pois meus sentidos primitivos ainda respondiam corretamente. Eu sentia dor física, essa era o primeiro passo para testar a sanidade e a realidade. Dor.

Mancando e com a testa latejando de curiosidade misturado ao ódio do instante anterior, voltei-me a colocar sob o abrigo do sol, pois o único lugar na cela onde fazia calor. Ao sentar-se, novamente, a voz voltou a tratar comigo:

— É isso então que ofereces a ti mesmo? Ira? Ódio? Não consegues mais ser um homem íntegro, processar as informações e assimilá-las em tua mente como sempre fez, Jack? O que as paixões e desejos fizeram com você, pobre homem. Bem que tu dizias que seria tua própria ruína. Só não esperavas que fosse tão cedo, dessa forma.

Interrompi a fala daquela voz irritante e bradei com toda força:

— QUEM, ÉS, TU? Diga, imediatamente, de onde vens, o que queres, quem é! Diga seu nome, sombra medonha e maldita! Apresente-se e enfrente quem tanto tenta irritar!

— Irritar, Jack? É isso que pensas que quero fazer? É irritado que fica quando ouves a verdade? Desde quando a verdade macula seus ouvidos? Não era ela, motivo de deleite para tua paz?... Meu nome, ora, pois pareces saber perfeitamente. Sombra. Esse é o nome que me destes, esse é o nome que carregarei. Tu sabes de onde venho. Só não compreendes por que estou aqui. Primeiro: torna a fazer as pazes com a verdade. Esse é meu conselho, se ainda queres ser aconselhado.

— Tu não existes. É apenas um delírio mental dessa cabeça perturbada. Saia. Vá te embora, não quero tua companhia. Deixe-me definhar moribundo, como tu mesmo disseste, nesta cela.

— Veja, aprende rápido, ainda preserva certa humildade dentro de si.

— Humildade? Por que afirmas isso?

— Acaba de reconhecer tua miséria enfiado nessa cela. Moribundo, pronto para definhar.

— De fato. É meu destino, meu pagamento. O preço a ser pago pelos prodígios e tragédias que causei.

— Embora tenha guardado certa humildade, continua soberbo. Reconhece teu erro e tua condição, mas não consegue se perdoar. És um legítimo covarde convencido.

— E tu, escondido sob uma sombra pensas ser corajoso? O que é senão outro covarde convencido, protegido por um véu de irrealidade. Apenas balbucia ácidas palavras, fala como fosse o arauto da sabedoria, o oráculo guardião de toda verdade e conhecimento das virtudes desta terra. Até mesmo uma sombra tagarela não me causa mais sentimento ou remorso algum. Vás-te embora! Tu não és bem-vindo, nem faço questão da tua presença.

— Presunçoso, soberbo e atrevido. É isso que és. Nada mais! Ou melhor, tornou-se isso. O que torna tua condição ainda pior. Quanto mais sábio, maior o rigor no julgamento sobre tuas ações. Tu mesmo sabes disso. Não me julgues arauto da sabedoria ou oráculo guardião de toda verdade. Eu não sei nem uma vírgula a mais do que você. Se eu sou, então também tu és.

— O que fazes aqui? Por que está a me importunar, ó sombra tagarela?

— Eu estou a te importunar? Ó, perdoe-me. Estou apenas sob o véu da irrealidade como tu mesmo dizes. Eu sou, mas não existo. Eu existo, mas não sou. Longe das minhas intenções importunar tua constrangida mente. Aconselho que se acostume com essa presença umbrática. Tu causaste tudo isso. É mais uma cifra do suposto custo que tu mesmo disseras logo antes. E antes que pergunte. Nada quero de ti, senão o mesmo que tu.

— Por que falas de modo tão hermético?

— Como é sua mente? Como é a linguagem do seu pensamento? Não é, pois, obscura, nebulosa? Se sou recôndito, é porque tu te tornaste cabalístico. Procure recordar que a Verdade reside na simplicidade. A mentira necessita, por óbvio, de manobras impuras para que seja tomada como verdade. A Verdade, jamais. Ela apenas é por si mesma, diferente da mentira, que necessita de um hospedeiro ardiloso para existir.

— Discursas bem, obedece a lógica, mas foge e se desvias das perguntas que lhe faço. Busca sair pela tangente em toda oportunidade. Deveria ser tu, então, manobra da mentira?

— Ó, não, jamais. Não queria me confundir com a Verdade ou com a Mentira. Não porto nenhuma das duas, apenas anuncio o que ambas são e como existem. Antes que pense, não sou a mentira, nem mesmo a verdade. O fino véu entre as duas, é ali onde resido: a consciência.

– Estás a afirmar que tu és minha consciência? Estás dentro de mim? Devo estar louco, de fato.

— Fazes de desentendido. Diz que busco sair pela tangente, mas o faz com a maior das maestrias. És um exímio manobrista da mentira. Aliás, tornou-se. Fez isso consigo mesmo. Ainda não estás envergonhado. A centelha de humildade dentro de ti é ignóbil e mesquinha. Tu cavaste tão fundo que acessou a mais profunda das cavernas da alma: a da soberba.

— Devo rir de ti. Fala como se me conhecesses, como se pudesse ler um dossiê da minha vida, dos meus pensamentos. Voltarei a perguntar-lhe: por que está aqui? O que queres?

— Lhe convido, jovem Jack, a contemplar a insignificância da sua existência. A mesquinhez da sua vida, a insensatez dos seus juízos, a selvageria da tua soberba. Saboreie o fel residual da tua desprezível vaidade. Mas faço um alerta: Abandone tudo o que pensas que sabe sobre a vida. Teus conceitos, coloque-os em modo inicial, como se tivesse acabado de sair do ventre da tua mãe. Volte a ser criança, retome sua inocência, assuma o controle da imaculada degustação das experiências virtuosas e cândidas da vida. Já não tens mais nada a perder, afinal, perdeu quase tudo. O que lhe restou é sua, ainda que contaminada, mas preciosa mente. Convido-te a restaurar sua maior riqueza, deleitar-se na inocente capacidade de saborear o mundo com os olhos puros de uma pequena criança que acaba de observar o arco-íris surgindo após uma violenta tempestade. Nada mais posso lhe oferecer senão isso.

 Essas palavras foram proferidas como borrifadas de um entorpecente que me causou letargia completa. Perdi a sensibilidade dos membros, aos poucos me entreguei ao sabor do sono que curiosamente me visitou em hora inoportuna, mas necessária.

Gabriel Borçatto.

Detalhes da imagem: Capa do livro O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.