Eu fui jogado numa cela
escura e gelada. Feita de pedras e areia batida com tom esverdeado, grades
curtas, porém grossas, onde a luz mal conseguia passar pelas suas frestas. O
chão era úmido e ladrilhado de grãos de areia que irritavam a pele.
Eu não vi o caminho até
aquela maldita cela que a partir daquele instante seria meu lar, além, é claro,
da minha própria mente. Era assim que éramos instruídos, desde muito jovens,
alguns até crianças. Nossa mente era nosso refúgio, nossa fortaleza. Nada ou
ninguém poderia invadir aquele reduto de resistência. Mesmo que singela e
frágil, era potencialmente indestrutível, capaz de realizar prodígios ou
tragédias. E foi o que a minha mente realizou. Grandes prodígios, grandes
tragédias. E ali eu estava, essa era a recompensa da soberba, a contrapartida
de minhas decisões e omissões. Minhas paixões, prazeres e ambições agora eram
habitações vazias, que incessantemente bombardeavam minha sanidade com relances
de ódio, repulsa, tristeza e especialmente uma curiosa e ácida satisfação.
Sentei-me, ainda
atordoado com a pancada na cabeça, num canto onde a luz era mais intensa e
brilhava com certa liberdade. Nesse instante contemplei todas as minhas
feridas. Na pele alguns arranhões e cortes sem profundidade. Na alma um rasgo entranhado,
quase separando-a em duas, nada mais do que o preço do que eu havia construído.
O custo era uma alma dilacerada por uma serra cega. Se cortassem qualquer
membro do meu corpo, não seria dor suficiente para superar o sentimento inexorável
de uma alma condenada ao fosso mais profundo do inferno. Comecei a reclamar de
dor e pus a mão lentamente em minha nuca, como se tentasse, pela imposição dos
membros, aliviar a dor e a tontura que me afligia. Imediatamente ouvi uma voz
vindo do outro lado da cela, que possuía grandes dimensões. Uma voz rouca,
fraca, misteriosa. Não conseguia identificar quem falava comigo, pois estava
escuro, protegido sob a sombra das paredes, contra a luz do sol.
— É isso que
conquistastes, pois? — Disse a voz em
tom de deboche.
— Quem falas? Mostra-te
sob a luz, homem! — respondi, curioso e com certo espanto. Afinal, havia alguém
em minha cela. E o mais intrigante: parecia me conhecer, pelo tom com que havia
me dirigido.
— Quem eu sou, pouco
importa. Aliás, não importa. Sempre estive contigo, mas tu não me vias. Tu me
via quando andava na luz, mas passei a viver dentro de ti quando optou pela
escuridão. Por isso não me vê, não podes me ver até que eu queira. Se me vir,
será sempre manifestado em algo, sempre pela tua silhueta, na forma, mas na
matéria, apenas por minha legítima vontade.
— Deixa-me confuso
falando assim, não consigo compreender perfeitamente. Como se chama? Por que
está preso nesta cela? — buscando certa proximidade e tentando persuadir a voz
a se mostrar diante de mim, respondi em tom de amizade.
— Eu não tenho nome. Não
possuo idade. Você é o único motivo de estarmos aqui.
Nesse instante a porta da
cela se abriu, a voz cessou e uma leva de soldados entrou na cela. Eram 6. Por
último, entrou um mensageiro oficial da Origem. Trazia consigo um ofício
expedido por um dos 7 Grandes Conselheiros da Magnífica Assembleia.
— Louis “Jack” Albierg.
Levante-se. Ouça a mensagem que tenho para você.
Imediatamente levantei e
me coloquei em posição de descanso, como me foi ensinado na escola a se
comportar diante de um mensageiro oficial da Origem.
O mensageiro tomou o
papel em suas mãos e começou a lê-lo em voz alta:
— Ofício emitido pelo 7º
Grande Conselheiro da Magnífica Assembleia. Expedição do termo de custódia. Louis
Albierg, conhecido pelo codinome Jack, tu encontras sub custódia a
Extraordinária Liga Original, numa prisão de classificação Masmorra, pelas
suspeitas dos seguintes crimes: Assassinato, corrupção de comuns, volúpia e
deserção. Todos os crimes serão julgados pelo tribunal citado no início deste
documento, tendo como juiz todos os 7 Grandes Conselheiros da Magnífica
Assembleia Original, a MAO. Cite-se importante o acusado saber dos seus poderes,
que, dos preservados pela condição de investigado da Liga, são: Garantia de
livre manifestação do seu pensamento; possibilidade de confissão precoce dos
crimes, com o abono consequente das penas; integridade mental e física;
permissão para orações na capela, acompanhado de guardas; Caro investigado:
Julgue-se homem abençoado por receber a oportunidade para retratação. Use o
tempo nesta cela para refletir e tornar-se um novo homem. O dia do seu
julgamento será o dia da sua libertação.
Com essas palavras o
mensageiro amassou o papel e se retirou da sala, indo com ele todos os guardas.
Sentei-me novamente no canto da sala, sob a luz do sol e acabei esquecendo por
um instante da voz que falava comigo antes da entrada dos guardas. Porém, logo
dirigiu novamente a palavra a mim:
— Assassinato, volúpia,
deserção e corrupção de comuns. O que tornaste tu? Tudo por líquidas e vãs
paixões? Ideais supérfluos e voláteis? Um verme sob a terra, é isso que és. Não
teve a ombridade e coragem de resistir a ti mesmo. Sucumbiu levianamente as
forças opostas ao bem, e hoje é nisto que transformaste. Um moribundo jogado
numa cela.
Tomado de ira me levantei
e fui ao encontro da voz que se dirigia a mim no outro lado daquela escura
cela. Com os olhos semicerrados e os punhos fechados, avancei com ira sob a
silhueta que se apresentava diante dos meus olhos. Acertei a parede com toda
força, quase quebrando os dedos, fazendo-a sangrar. Não havia matéria alguma
ali. Era como se a voz tivesse virado pó. Forçando os olhos tentei reparar ao
redor buscando encontrar o homem que me oferecia tal discurso, em vão. Parecia
irreal. Gritei, bradando que se manifestasse diante de mim, que fosse corajoso
para se apresentar como tal. Silêncio. Nesse instante pensei ter enlouquecido.
Sim, eu havia enlouquecido. Estava conversando com quem, afinal? Como aquela
voz sabia tanto sobre mim, parecia estar lendo meus sentimentos.
Observando minha mão
sangrando, percebi que ao menos aquilo era real, pois meus sentidos primitivos
ainda respondiam corretamente. Eu sentia dor física, essa era o primeiro passo
para testar a sanidade e a realidade. Dor.
Mancando e com a testa
latejando de curiosidade misturado ao ódio do instante anterior, voltei-me a
colocar sob o abrigo do sol, pois o único lugar na cela onde fazia calor. Ao
sentar-se, novamente, a voz voltou a tratar comigo:
— É isso então que
ofereces a ti mesmo? Ira? Ódio? Não consegues mais ser um homem íntegro,
processar as informações e assimilá-las em tua mente como sempre fez, Jack? O
que as paixões e desejos fizeram com você, pobre homem. Bem que tu dizias que
seria tua própria ruína. Só não esperavas que fosse tão cedo, dessa forma.
Interrompi a fala daquela
voz irritante e bradei com toda força:
— QUEM, ÉS, TU? Diga,
imediatamente, de onde vens, o que queres, quem é! Diga seu nome, sombra
medonha e maldita! Apresente-se e enfrente quem tanto tenta irritar!
— Irritar, Jack? É isso
que pensas que quero fazer? É irritado que fica quando ouves a verdade? Desde
quando a verdade macula seus ouvidos? Não era ela, motivo de deleite para tua
paz?... Meu nome, ora, pois pareces saber perfeitamente. Sombra. Esse é o nome
que me destes, esse é o nome que carregarei. Tu sabes de onde venho. Só não
compreendes por que estou aqui. Primeiro: torna a fazer as pazes com a verdade.
Esse é meu conselho, se ainda queres ser aconselhado.
— Tu não existes. É
apenas um delírio mental dessa cabeça perturbada. Saia. Vá te embora, não quero
tua companhia. Deixe-me definhar moribundo, como tu mesmo disseste, nesta cela.
— Veja, aprende rápido,
ainda preserva certa humildade dentro de si.
— Humildade? Por que
afirmas isso?
— Acaba de reconhecer tua
miséria enfiado nessa cela. Moribundo, pronto para definhar.
— De fato. É meu destino,
meu pagamento. O preço a ser pago pelos prodígios e tragédias que causei.
— Embora tenha guardado
certa humildade, continua soberbo. Reconhece teu erro e tua condição, mas não
consegue se perdoar. És um legítimo covarde convencido.
— E tu, escondido sob uma
sombra pensas ser corajoso? O que é senão outro covarde convencido, protegido
por um véu de irrealidade. Apenas balbucia ácidas palavras, fala como fosse o
arauto da sabedoria, o oráculo guardião de toda verdade e conhecimento das
virtudes desta terra. Até mesmo uma sombra tagarela não me causa mais
sentimento ou remorso algum. Vás-te embora! Tu não és bem-vindo, nem faço
questão da tua presença.
— Presunçoso, soberbo e
atrevido. É isso que és. Nada mais! Ou melhor, tornou-se isso. O que torna tua
condição ainda pior. Quanto mais sábio, maior o rigor no julgamento sobre tuas
ações. Tu mesmo sabes disso. Não me julgues arauto da sabedoria ou oráculo
guardião de toda verdade. Eu não sei nem uma vírgula a mais do que você. Se eu
sou, então também tu és.
— O que fazes aqui? Por
que está a me importunar, ó sombra tagarela?
— Eu estou a te
importunar? Ó, perdoe-me. Estou apenas sob o véu da irrealidade como tu mesmo
dizes. Eu sou, mas não existo. Eu existo, mas não sou. Longe das minhas
intenções importunar tua constrangida mente. Aconselho que se acostume com essa
presença umbrática. Tu causaste tudo isso. É mais uma cifra do suposto custo
que tu mesmo disseras logo antes. E antes que pergunte. Nada quero de ti, senão
o mesmo que tu.
— Por que falas de modo
tão hermético?
— Como é sua mente? Como
é a linguagem do seu pensamento? Não é, pois, obscura, nebulosa? Se sou
recôndito, é porque tu te tornaste cabalístico. Procure recordar que a Verdade
reside na simplicidade. A mentira necessita, por óbvio, de manobras impuras
para que seja tomada como verdade. A Verdade, jamais. Ela apenas é por si
mesma, diferente da mentira, que necessita de um hospedeiro ardiloso para
existir.
— Discursas bem, obedece
a lógica, mas foge e se desvias das perguntas que lhe faço. Busca sair pela
tangente em toda oportunidade. Deveria ser tu, então, manobra da mentira?
— Ó, não, jamais. Não
queria me confundir com a Verdade ou com a Mentira. Não porto nenhuma das duas,
apenas anuncio o que ambas são e como existem. Antes que pense, não sou a
mentira, nem mesmo a verdade. O fino véu entre as duas, é ali onde resido: a
consciência.
– Estás a afirmar que tu
és minha consciência? Estás dentro de mim? Devo estar louco, de fato.
— Fazes de desentendido.
Diz que busco sair pela tangente, mas o faz com a maior das maestrias. És um
exímio manobrista da mentira. Aliás, tornou-se. Fez isso consigo mesmo. Ainda
não estás envergonhado. A centelha de humildade dentro de ti é ignóbil e mesquinha.
Tu cavaste tão fundo que acessou a mais profunda das cavernas da alma: a da
soberba.
— Devo rir de ti. Fala
como se me conhecesses, como se pudesse ler um dossiê da minha vida, dos meus
pensamentos. Voltarei a perguntar-lhe: por que está aqui? O que queres?
— Lhe convido, jovem
Jack, a contemplar a insignificância da sua existência. A mesquinhez da sua
vida, a insensatez dos seus juízos, a selvageria da tua soberba. Saboreie o fel
residual da tua desprezível vaidade. Mas faço um alerta: Abandone tudo o que
pensas que sabe sobre a vida. Teus conceitos, coloque-os em modo inicial, como
se tivesse acabado de sair do ventre da tua mãe. Volte a ser criança, retome
sua inocência, assuma o controle da imaculada degustação das experiências
virtuosas e cândidas da vida. Já não tens mais nada a perder, afinal, perdeu
quase tudo. O que lhe restou é sua, ainda que contaminada, mas preciosa mente.
Convido-te a restaurar sua maior riqueza, deleitar-se na inocente capacidade de
saborear o mundo com os olhos puros de uma pequena criança que acaba de
observar o arco-íris surgindo após uma violenta tempestade. Nada mais posso lhe
oferecer senão isso.
Essas palavras foram proferidas como
borrifadas de um entorpecente que me causou letargia completa. Perdi a
sensibilidade dos membros, aos poucos me entreguei ao sabor do sono que
curiosamente me visitou em hora inoportuna, mas necessária.
Gabriel Borçatto.
Detalhes da imagem: Capa do livro O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.
