No meio de tantas leituras, reflexões e pensamento, procuro sempre vislumbrar símbolos que auxiliem meu imaginário a relacionar conceitos abstratos e concretos, visando estruturar o conhecimento adquirido, garantindo, de certa forma, que a grande gama de informações, ideias e raciocínios não se percam ou sejam facilmente esquecidos.
Os símbolos são ferramentas úteis para esquematizar e elucidar de maneira lúdica e prática, conceitos muitas vezes abstratos, de complexa compreensão. Eles servem de apoio à linguagem, quando esta, sozinha, não consegue exprimir na íntegra a mensagem ou conhecimento a ser transmitido.
Assisti recentemente a uma apresentação de TCC de um amigo, formando em arquitetura, que dedicou seus esforços em montar um projeto de um Museu da Casa de Madeira. Embora eu soubesse, evidentemente, o que é uma casa de madeira, muito me tangeu a imaginação do que se trataria o projeto. Fui surpreendido.
O apresentador e criador do projeto, eluciou seu trabalho de maneira tão brilhante, que qualquer leigo no assunto, como eu, poderia compreender perfeitamente seus objetivos, métodos e motivações. Tudo no trabalho foi abordado e pensado com o mais cuidadoso respeito pela arte, mas o que mais me chamou a atenção foram justamente as motivações de seu trabalho que, nas palavras do apresentador, seria a "evocação da lembrança cultural de um povo, de uma comunidade". E de fato é. A casa de madeira, na região sudoeste do Paraná, em especial, é um conceito muito presente. Quem nunca adentrou numa? Que conterrâneo não possui uma lembrança doce da infância, na qual a conjurada memória traz um cenário com uma casa de madeira? Embora talvez simples, a casa de madeira recorda aconchego, proteção e acolhimento.
Segundo o apresentador, a cultura e a prática de usar madeira na construção civil fora se perdendo com o passar dos anos, substituída por materiais tomados como "tecnicamente mais apropriados", o que, segundo ele e a própria banca avaliadora, não passa de um mito já vencido na arquitetura. Nesse instante, quase que instantaneamente relacionei esse fato ao corrente pensamento moderno que procura "superar" conceitos, princípios e concepções tidos como ultrapassados, antiquados para nosso tempo. E vou além, ao passo de que na arquitetura buscou-se dar foco à formas mais futuristas e contemporâneas, sob pretextos oblíquos, no campo da filosofia e do pensamento ideológico, se busca, incansavelmente, encontrar formas e métodos que suplantem ideais, princípios e valores construídos pelo suor de muito esforço, que se constituíram como identidade de um povo, mas agora, e há algum tempo, por serem considerados rudimentares e primitivos, correm eminente risco de serem abolidos definitivamente dos círculos sociais.
Arrisco dizer que esse movimento revolucionário, encabeçado principalmente por grupos ideológicos, populistas, que se apresentam sob alegação da proteção social, da defesa das minorias que, como bem sabemos, não passam de subterfúrgios retóricos, agem de modo irresponsável e inconsequente, sem notar que suprimindo valores e virtudes milenarmente construídos, arriscam toda uma herança histórica e cultural, gradativamente estruturada, dando forma a manifestação da vontade de um povo. É evidente que devemos vislumbrar avanços e modificações culturais, mas é valido lembrar que toda mudança e avanço deve ser visto como aprimoramento e não como revolução, visto que o passado já foi testado e o futuro é baseado em possibilidades e ideias. Esse é o método dialético de Aristóteles, posteriormente investigado e aperfeiçoado no período da escolástica de São Tomás de Aquino.
Talvez seja a hora de resgatar com orgulho esses valores morais, éticos e religiosos, paulatinamente construídos pelos braços de homens de fé e de sabedoria. Em outras palavras, simbolicamente, quem sabe seja o momento de restaurar nossas casas de madeira, orgulhar-se de seu significado, reconstituindo o que foi desgastado e corrompido.
Assistir a apresentação do Museu da Casa de Madeira foi um consolo para meus devaneios. Com certeza observarei com olhar mais carinhoso para esse símbolo, ao passo de que estruturo, dentro de mim, minha própria casa de madeira.
