Lembro bem dos nossos voos
Éramos três
Eu, você e alguns obstáculos poucos.
A lua banhava nosso amor
Na fria madrugada
Sua prata, apesar de fria
Era fonte de calor.
O noite era feroz
Nosso beijo era alento
Pois estar sem ti, descobri
É golpe violento.
O som da solidão
Em nosso abraço não penetrava
Nossa pele era armadura, proteção
N'assombrosa noite em que o vento uivava.
Com medo da escuridão perversa
Fugi como criança indefesa
Esqueci das juras
Em busca de aventuras, tornei-me poeta.
Alcei voo desgarrado
Busquei amparo em ninho enfadonho
Nada pude encontrar
Já havia despertado de nosso valoroso sonho.
Voar não quis mais
Aos anjos que voaram comigo
Não virei outrora jamais
São criaturas que já habitam noutro paraíso.
Asas hoje acorrentadas
O vento já não sentem
Foram testemunhas da queda
Caladas, escondidas, não mentem.
Asas que outrora brilharam
Hoje do astro-rei estão ocultas
A lua, ainda as vê
Pois a prata as torna puras.
No silêncio da abóbada estrelada
A solidão ensurdece
Vejo anjos voando
Testemunhando, de longe, o par de asas quebradas.
