Parte de Conto - DESPEDIDA JACK E AURORA


 

Era um dia do outono e o vento trazia consigo um frio incomum. Seu som e sua frequência operavam como um prelúdio do que viria a se suceder. Não ventava forte, mas era constante o sopro do ar. O céu possuía nuvens de frio de tons de cinza. O matiz do firmamento era uma mistura de cores esquecidas. A harmonia do dia era perfeita, pois os céus pintavam cores e o vento soprava melodias.

Ela chegou como que trazida pelo próprio vento. Eu estava sentado ao pé do velho carvalho, no topo da montanha. Pude sentir seu cheiro doce antes mesmo de estar por perto. Parecia que ela e a brisa eram uma coisa só, uma fusão da natureza que tinha cor, cheiro e forma. Seus passos eram lentos, porém firmes. Seu olhar era convicto, mas havia algo em seu rosto que não consegui decifrar, uma espécie de arrependimento e dor profunda. Ainda assim seus olhos negros brilhavam no contraste do sol que se punha nas suas costas. Os cabelos eram arrastados pelo vento e se assemelhavam a uma capa que atribuía a sua chegada um tom dramático.

A cada passo dela para mais perto, eu desfalecia um pouco. Meu coração foi tomado por um medo pungente, minha alma tremeu, senti que o desespero tomava conta dos meus sentidos. A melodia do sopro do destino performava no meu ouvido uma sinfonia de tristeza, medo e solidão. Senti meus pulmões sufocados por uma névoa oculta, precisei ser corajoso e enfrentar o colapso do meu corpo. Entrei em choque.

- É aqui onde tudo se finda? – Disse Aurora, piscando os olhos com profundo pesar.

- Aurora! – Levantei-me do chão, segurando as mãos do próprio amor, sentindo também o seu desespero. – Jamais haverá fim. Esse sentimento que partilhamos, amada, é sublime, pois transcende a própria morte, vai além de qualquer fim, não obedece às leis comuns desse universo. Já não somos dois, mas um só, unidos pelo mais sagrado e elevado os sentimentos. – Interrompido por um choro sufocado dela, prossegui. – Olhe em meus olhos, sinta todo o ardor do meu amor por você. Saiba que meu pensamento eternamente estará em harmonia com os seus. Ainda que nessa vida nossos corpos sejam separados, nossas almas têm infinita anseio de partilhar da mesma essência, portanto estão eternamente ligadas, numa dança muito bem ensaiada, planejada desde o início do mundo. Somos feitos da mesma matéria dos sonhos e você é o meu desejo mais profundo, o qual cultivo desde que olhei em seus olhos pela primeira vez. – Apertei com força sua cabeça em meu peito e senti as lágrimas dela molharem meu colarinho.

Por um momento ficamos abraçados, como se o tempo estivesse congelado ao nosso redor. Nada no mundo, naquele instante, era mais forte que nosso abraço. Era uma fortaleza em meio ao caos, um universo de paz rodeado por ruínas de um mundo há muito decaído. Se algum olho tivesse vislumbrado aquele momento, afirmaria que faíscas brotavam daqueles corpos entrelaçados, que uma áurea branca e pura os envolvia naquele curto lapso temporal. Nada seria capaz de separar aqueles que haviam feito do amor o seu reino de paz.

- Como pode dizer que jamais haverá de terminar, se amanhã já não estaremos juntos? Jack!? Como pode!? – Em meio aos soluços procurava meus olhos, em vão, já que minha coragem de olhar para seu rosto havia me deixado. – O amor precisa de presença, Jack. Eu preciso de você aqui, do meu lado, com nossa casa, nossos sonhos e planos. Apenas eu e você, meu amor, apenas isso! Eu sei da sua tarefa, do seu papel e de sua missão nessa terra. Mas o que pode ser maior que o amor puro que sentimos um pelo outro?

- Absolutamente nada. Nada é maior. Ouço suas palavras com o som doce de sua boca e sinto uma lança envenenada atravessar minhas entranhas, trazendo todas as lembranças que vivemos, recordando no meu íntimo todas as vezes que sorrimos e choramos juntos. Nada nessa vida há de ser mais elevado que o sentimento que cultivo por ti, minha amada. Tu foste a inspiração de todos os meus sonhos, minha alma aprendeu em ti as virtudes pelas quais estimo. Tu és a mais bela de todas, seja sorrindo, chorando, gritando, em silêncio, dormindo... meus olhos não se cansam de se deleitar com tua face, tua tão linda face. Tu foste e és dona da mais doce presença que existiu nessa terra. Nem eu, nem essa terra merece a doçura e inocência do teu sorriso e, se algum dia fui motivo da curvatura dos teus lábios, então fui bom e esse é meu orgulho. Tudo, em minha vida, após conhecer-te, foi tendo você como finalidade. E meu anjo, Aurora, luz da minha manhã, minha alma é tão sombria que nem mesmo habitando dentro do próprio sol poderia encontrar redenção. Ainda que tu me ofereças uma oportunidade alternativa para essa vida desgarrada, saiba que ainda sigo procurando fazer o melhor pra ti, jamais para mim. Ainda que hoje pareça egoísmo meu, eventualmente perceberá e reconhecerá meus motivos. Egoísta eu seria se levasse para ti toda perseguição, maldade e dor que carrego em meu peito. Compreendo que estás disposta a enfrentar tudo ao meu lado, mas a ti, Aurora, não posso oferecer nada senão o mais prudente. Desta vez, e ao menos desta vez, irei obedecer ao dever e não ao desejo. Essa será minha última escolha, meu último erro e meu último acerto. Você sabe que minha história se encerra aqui, mas a nossa história ecoa pela eternidade, sendo cantada pelas almas apaixonadas que um dia buscarão inspiração naqueles que, um dia, quiseram estar juntos, mas não puderam, não por escolha própria, mas por forças exteriores que os oprimiram e impediram que fisicamente pudessem estar lado a lado, mas que por outro lado, espiritualmente dançaram uma coreografia sem fim, até o fim do mundo.

Após uma longa despedida regada por lágrimas sinceras, diluídas em sinceridade, inocência, carinho e especialmente amor, selaram pela última vez os lábios num gesto calmo, profundo, divino e monumentalmente único. Pela última vez os corpos se tocaram, mas selaram para a eternidade as almas daqueles que não por desejo próprio, foram condenados a viverem afastados do seu amado.

Aurora deixando sua mão lentamente cair das mãos de Jack, com o rosto tomado pelas lágrimas, deu meia volta num movimento melancolicamente lento. Os olhos de Jack se fecharam num sinal de despedida e gratidão por ter experimentado aquele amor que ele só conhecera nos livros, e que agora vivera tão intensamente que o fazia sentir-se flutuando sobre as nuvens. Mas havia terminado, assim como todas as coisas terrenas se encerram, aquela sensação mágica havia encontrado seu final derradeiro ali, na última luz do último dia da sua vida, debaixo da abóboda estrelada e do velho carvalho, que imponente, ali fazia sua morada eterna, até que encontrasse também o seu dia final. Jack viu Aurora desaparecendo ao longe, em meio a névoa que começara a se formar. Aurora desaparecia e junto dela ia toda a esperança de Jack ser um dia alguém comum, como ele tanto almejava. Jack precisou experimentar a ruína humana para descobrir que a coisa mais extraordinária do mundo é simplesmente o amor e suas formas externas, puras e sinceras. Terminava, ali, naquele maldito e fatídico instante, o sonho de uma vida.

Jack agora também chorava, mas não por causa da sua dor pessoal; chorava devido à comoção reverente que dominara seu espírito, em face da consciência do simples e solene mistério do fim, que havia se cumprido ali, diante dele.


Gabriel Borçatto

Detalhe da imagem: Aragorn e Arwen - O Senhor dos Anéis.