Ela chegou como que trazida pelo próprio vento. Eu estava
sentado ao pé do velho carvalho, no topo da montanha. Pude sentir seu cheiro
doce antes mesmo de estar por perto. Parecia que ela e a brisa eram uma coisa
só, uma fusão da natureza que tinha cor, cheiro e forma. Seus passos eram
lentos, porém firmes. Seu olhar era convicto, mas havia algo em seu rosto que
não consegui decifrar, uma espécie de arrependimento e dor profunda. Ainda
assim seus olhos negros brilhavam no contraste do sol que se punha nas suas
costas. Os cabelos eram arrastados pelo vento e se assemelhavam a uma capa que
atribuía a sua chegada um tom dramático.
A cada passo dela para mais perto, eu desfalecia um pouco. Meu
coração foi tomado por um medo pungente, minha alma tremeu, senti que o
desespero tomava conta dos meus sentidos. A melodia do sopro do destino
performava no meu ouvido uma sinfonia de tristeza, medo e solidão. Senti meus
pulmões sufocados por uma névoa oculta, precisei ser corajoso e enfrentar o
colapso do meu corpo. Entrei em choque.
- É aqui onde tudo se finda? – Disse Aurora, piscando os
olhos com profundo pesar.
- Aurora! – Levantei-me do chão, segurando as mãos do próprio
amor, sentindo também o seu desespero. – Jamais haverá fim. Esse sentimento que
partilhamos, amada, é sublime, pois transcende a própria morte, vai além de
qualquer fim, não obedece às leis comuns desse universo. Já não somos dois, mas
um só, unidos pelo mais sagrado e elevado os sentimentos. – Interrompido por um
choro sufocado dela, prossegui. – Olhe em meus olhos, sinta todo o ardor do meu
amor por você. Saiba que meu pensamento eternamente estará em harmonia com os
seus. Ainda que nessa vida nossos corpos sejam separados, nossas almas têm
infinita anseio de partilhar da mesma essência, portanto estão eternamente
ligadas, numa dança muito bem ensaiada, planejada desde o início do mundo.
Somos feitos da mesma matéria dos sonhos e você é o meu desejo mais profundo, o
qual cultivo desde que olhei em seus olhos pela primeira vez. – Apertei com
força sua cabeça em meu peito e senti as lágrimas dela molharem meu colarinho.
Por um momento ficamos abraçados, como se o tempo estivesse
congelado ao nosso redor. Nada no mundo, naquele instante, era mais forte que
nosso abraço. Era uma fortaleza em meio ao caos, um universo de paz rodeado por
ruínas de um mundo há muito decaído. Se algum olho tivesse vislumbrado aquele
momento, afirmaria que faíscas brotavam daqueles corpos entrelaçados, que uma
áurea branca e pura os envolvia naquele curto lapso temporal. Nada seria capaz
de separar aqueles que haviam feito do amor o seu reino de paz.
- Como pode dizer que jamais haverá de terminar, se amanhã já
não estaremos juntos? Jack!? Como pode!? – Em meio aos soluços procurava meus
olhos, em vão, já que minha coragem de olhar para seu rosto havia me deixado. –
O amor precisa de presença, Jack. Eu preciso de você aqui, do meu lado, com
nossa casa, nossos sonhos e planos. Apenas eu e você, meu amor, apenas isso! Eu
sei da sua tarefa, do seu papel e de sua missão nessa terra. Mas o que pode ser
maior que o amor puro que sentimos um pelo outro?
- Absolutamente nada. Nada é maior. Ouço suas palavras com o
som doce de sua boca e sinto uma lança envenenada atravessar minhas entranhas,
trazendo todas as lembranças que vivemos, recordando no meu íntimo todas as
vezes que sorrimos e choramos juntos. Nada nessa vida há de ser mais elevado
que o sentimento que cultivo por ti, minha amada. Tu foste a inspiração de
todos os meus sonhos, minha alma aprendeu em ti as virtudes pelas quais estimo.
Tu és a mais bela de todas, seja sorrindo, chorando, gritando, em silêncio,
dormindo... meus olhos não se cansam de se deleitar com tua face, tua tão linda
face. Tu foste e és dona da mais doce presença que existiu nessa terra. Nem eu,
nem essa terra merece a doçura e inocência do teu sorriso e, se algum dia fui
motivo da curvatura dos teus lábios, então fui bom e esse é meu orgulho. Tudo,
em minha vida, após conhecer-te, foi tendo você como finalidade. E meu anjo,
Aurora, luz da minha manhã, minha alma é tão sombria que nem mesmo habitando
dentro do próprio sol poderia encontrar redenção. Ainda que tu me ofereças uma
oportunidade alternativa para essa vida desgarrada, saiba que ainda sigo procurando
fazer o melhor pra ti, jamais para mim. Ainda que hoje pareça egoísmo meu,
eventualmente perceberá e reconhecerá meus motivos. Egoísta eu seria se levasse
para ti toda perseguição, maldade e dor que carrego em meu peito. Compreendo
que estás disposta a enfrentar tudo ao meu lado, mas a ti, Aurora, não posso
oferecer nada senão o mais prudente. Desta vez, e ao menos desta vez, irei obedecer
ao dever e não ao desejo. Essa será minha última escolha, meu último erro e meu
último acerto. Você sabe que minha história se encerra aqui, mas a nossa
história ecoa pela eternidade, sendo cantada pelas almas apaixonadas que um dia
buscarão inspiração naqueles que, um dia, quiseram estar juntos, mas não
puderam, não por escolha própria, mas por forças exteriores que os oprimiram e
impediram que fisicamente pudessem estar lado a lado, mas que por outro lado,
espiritualmente dançaram uma coreografia sem fim, até o fim do mundo.
Após uma longa despedida regada por lágrimas sinceras,
diluídas em sinceridade, inocência, carinho e especialmente amor, selaram pela
última vez os lábios num gesto calmo, profundo, divino e monumentalmente único.
Pela última vez os corpos se tocaram, mas selaram para a eternidade as almas
daqueles que não por desejo próprio, foram condenados a viverem afastados do
seu amado.
Aurora deixando sua mão lentamente cair das mãos de Jack, com
o rosto tomado pelas lágrimas, deu meia volta num movimento melancolicamente
lento. Os olhos de Jack se fecharam num sinal de despedida e gratidão por ter
experimentado aquele amor que ele só conhecera nos livros, e que agora vivera
tão intensamente que o fazia sentir-se flutuando sobre as nuvens. Mas havia terminado,
assim como todas as coisas terrenas se encerram, aquela sensação mágica havia
encontrado seu final derradeiro ali, na última luz do último dia da sua vida,
debaixo da abóboda estrelada e do velho carvalho, que imponente, ali fazia sua
morada eterna, até que encontrasse também o seu dia final. Jack viu Aurora
desaparecendo ao longe, em meio a névoa que começara a se formar. Aurora
desaparecia e junto dela ia toda a esperança de Jack ser um dia alguém comum,
como ele tanto almejava. Jack precisou experimentar a ruína humana para
descobrir que a coisa mais extraordinária do mundo é simplesmente o amor e suas
formas externas, puras e sinceras. Terminava, ali, naquele maldito e fatídico
instante, o sonho de uma vida.
Jack agora também chorava, mas não por causa da sua dor
pessoal; chorava devido à comoção reverente que dominara seu espírito, em face
da consciência do simples e solene mistério do fim, que havia se cumprido ali,
diante dele.
Gabriel Borçatto
Detalhe da imagem: Aragorn e Arwen - O Senhor dos Anéis.
