OS OUTROS DEUSES



 "A Discórdia, plena de gemidos, alegrou-se com tal visão. Pois era a única dos deuses que estava ao lado dos combatentes. Os outros deuses não estavam com eles, mas descansados se sentavam nos seus palácios"

É curioso como a literatura, por mais antiga que seja, ilustra com agudeza a natureza do mundo. 

Homero, na Ilíada, relata com copiosa riqueza os detalhes físicos, geográficos e genealógicos dos personagens envolvidos na Guerra de Tróia. Indo além, narra a dinâmica da refrega com sublime capricho, tratando das circunstâncias, motivações, paixões e valores que acompanham as figuras que integram a obra.

O temor, admiração e esperança dos personagens mortais pelos deuses imortais é elemento que acompanha o enredo da história do prólogo ao epílogo. Tanto gregos quanto troianos atribuem aos deuses seus feitos, desgraças, motivações, omissões e tantos outros sentimentos. E os deuses? Ora, Homero os retrata como seres sublimes em essência, porém humanos na sua existência, pois se enfurecem, amam, amaldiçoam, protegem, aconselham e estão submetidos a todas as particularidades infinitas que condicionam uma alma humana.

Em certo ponto da história, Zeus, pais de todos os deuses e homens, ordena que Éris, a deusa da Discórdia, coloque-se entre gregos e troianos. Apesar dos deuses receberem atributos tidos como sublimes, sobre-humanos, uma das mais insidiosas deusas se coloca entre os homens, lançando desavença e incentivando ainda mais a refrega hedionda, e o pior, sob ordem do próprio deus-maior.

Homero, há mais de 3 mil anos pode notar que os deuses se sentam em seus palácios olimpianos, se deleitam na sua tediosa existência e a única deusa que se "compadece" e se coloca com interesse entre os mortais, contraditoriamente é a discórdia.

3 mil anos depois, seguimos lutando e morrendo pelos deuses. Aniquilando semelhantes em nome de uma divindade que em aparente essência é divina, mas em existência é tão menos humano que o mais reles verme.